A arte de cada um


Dia desses tive a oportunidade de saborear o filme dinamarquês A Festa de Babette, uma autêntica celebração à capacidade que alguns de nós têm de realizar as coisas mais simples da vida com tamanha entrega e satisfação, a ponto de tornar singelas ações verdadeiras obras de arte.
Embora o filme de Gabriel Axel (adaptado do livro homônimo de Isak Dinesen) tenha sido produzido em 1987, somente agora pude conhecer esta história transformadora, que propõe uma grande reflexão a respeito da vida, do trabalho e do relacionamento interpessoal.
Babette é uma cozinheira que ganha na loteria e gasta toda a sua pequena fortuna no preparo de um banquete, que oferece em agradecimento à comunidade triste em que vive. Além do dinheiro, Babette coloca no banquete todas as suas emoções, experiências, realizações e conquistas. Tudo ofertado para o deleite das pessoas que puderam se beneficiar desta refeição. A abundância de sentimentos e a mestria no preparo dos pratos tornam a cozinha de Babette uma arte, à qual seus convidados são submetidos e por ela definitivamente transformados.
O banquete libertador de Babette serviu para alimentar a alma de pessoas que careciam de alegria de viver.
A reflexão que o filme provoca é intensa e profunda. Creio que apenas alguns são capazes de fazer do seu trabalho cotidiano um bem comum transformador como as mais sublimes obras de arte. Até que ponto, contudo, podemos tornar nossas vidas mais significativas, não apenas para os outros, mas principalmente para nós mesmos?
Os desafios que temos que superar a cada dia, as cobranças, os compromissos tornam-nos ocupados demais para apenas viver, aproveitar as coisas simples e importantes como as refeições, o trabalho prazeroso, a natureza, os encontros.
Babette esperou a vida toda pela oportunidade de realizar o banquete de sua existência. Gastou toda a sua fortuna para concretizar esta realização que, à primeira vista, satisfez aos outros; mas, ao olhar mais atento, serviu ao extremo deleite da própria Babette. Ela contagiou os convidados com o seu empenho e a sua plenitude, mostrando que por mais simples que sejam as aptidões de cada um, desde que aplicadas com dedicação e desprendimento, é possível ser feliz e buscar a felicidade coletiva.
Outro fato chamou a minha atenção no filme dinamarquês: a forma acolhedora com que as irmãs Martina e Philippa receberam a fugitiva Babette em sua casa, sem tê-la conhecido previamente, apenas com um bilhete de indicação de um velho amigo. A este acolhimento, Babette respondeu com amizade, cuidado e ternura.
Detalhes, simples nuances que dão vida à existência.

Ficha técnica
Título original: Babettes Gaestebud
Título em português: A Festa de Babette
Diretor: Gabriel Axel
Elenco: Stéphane Audran, Jean-Philippe Lafont, Gudmar Wivesson, Jarl Kulle, Bibi Andersson, Ebbe Rode.
Duração: 102 minutos.
País: Dinamarca
Ano: 1987

Sinopse
Dois adolescentes vivem com o pai, um rigoroso pastor luterano, em um pequeno vilarejo da costa dinamarquesa. Em uma noite de 1871, bate à sua porta uma parisiense pedindo refúgio: Babette (Stéphane Audran) foge da repressão à Comuna de Paris e se oferece para ser a cozinheira e faxineira da família. Muitos anos depois, ainda trabalhando na casa, ela recebe a notícia de que ganhara uma fortuna numa loteria em Paris. Em vez de voltar à terra natal, resolve ficar e gastar o dinheiro em um autêntico jantar francês que oferece à comunidade, aproveitando para comemorar o centésimo aniversário do pastor. Seu banquete impressinou os convidados. Babette havia sido chef de cozinha francesa e trabalhado no chique Café Anglais (que existiu de verdade). O diretor trata a comida como "forma de elevação espiritual". Baseado na história de Isak Dinesen. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1988. Fonte: www.cineclick.com.br.

<volta>