"A
educação é uma forma de apropriação do mundo. Neste contexto, a educação
cultural abre mentes e visões; é uma forma de decodificar e interpretar
o mundo".
Wolfgang Schneider, diretor do Instituto de Políticas Culturais da Universidade
de Hildesheim, na Alemanha.
Hoje
vou falar de um tema específico, literatura infantil, e que tem
chamado minha atenção, inclusive depois que li uma pesquisa
feita pela UNESCO, em parceria com o MEC, que mostra o perfil dos professores
brasileiros do ensino fundamental. Infelizmente moramos em um país
que não tem ainda o hábito de ler. Daqueles que lêem,
a maior parte prefere livros e periódicos específicos
da área que atua. Clássicos da literatura somente quando
vai prestar vestibular ou concurso público.
É uma pena que poucos conhecem o poder da literatura e da leitura.
Um bom livro te leva a viajar pelo mundo, a sonhar, a desenvolver a
imaginação e até a viver outras vidas. Essa falta
de interesse por parte das crianças e dos jovens, e até
mesmo de alguns docentes, muitas vezes surge do fato de não terem
tido a oportunidade de acesso a um livro e também de não
terem visto seus pais lendo. Sabemos que a criança é impulsionada
pela curiosidade e pelos exemplos: ela quer saber "o que é"
e "quer fazer igual". A premiada escritora brasileira de livros
infanto-juvenis, Ana Maria Machado, em uma entrevista dada à
revista Nova Escola, conta que seu interesse pela literatura surgiu
de observar o pai, jornalista, e a mãe, uma "leitora voraz",
no dia-a-dia com livros nas mãos. Em sua casa, conta ela, havia
uma biblioteca e os filhos disputavam a atenção dos pais
com os livros. Então ela concluiu que ler deveria ser muito bom!
Olha que loucura!
Outra forma de estimular a leitura é na escola. Mas como fazer
isso se também encontramos em salas de aula professores que pouco
lêem? A pesquisa divulgada no site na Unesco mostra que entre
as atividades relativas às preferências culturais apresentadas
aos docentes, destacam-se aquelas ligadas à profissão.
A maioria dos professores, 52%, declara que costuma ler materiais de
estudo ou formação. Quanto ao tipo de leitura preferido,
a opção que obteve maior número de respostas foi
pedagogia e educação, com 49,5%, seguido de livros científicos,
com 28,3%. Depois aparecem literatura de ficção, com 27,6%
e livros de auto-ajuda, com 23,8%. Quanto à leitura de jornais,
um veículo acessível e que traz informação,
23,5% dos professores declararam que lêem 1 ou 2 vezes por semana,
9,5% que lêem a cada 15 dias e 3,7% que não lêem
jornal nunca.
Segundo
Ana Maria Machado, na faculdade os professores aprendem muito sobre
pedagogia e psicologia e quase nada sobre arte, além de terem
pouco contato com obras e clássicos da literatura. Talvez isso
explique o interesse dos professores por livros específicos da
área. Para a escritora, esse fato é um agravante na carreira
do professor, pois ele terá dificuldades de distinguir arte de
não arte e textos bons de textos ruins. Para suprir essa falha,
a escritora criou um curso no Rio de Janeiro para ensinar professores
a trabalhar com literatura, vejam só.
O ideal
no nosso ensino seria as unidades escolares abrirem um espaço
na grade curricular para leitura. Ana Maria Machado conta na entrevista
que na Inglaterra existe um programa educacional no qual num determinado
horário a escola se volta para a leitura. Todos lêem, porteiro,
servente, merendeira, diretora, professores e alunos. O tema pode ser
escolhido por cada um, a escola não interfere no tipo de leitura.
Terminado o tempo, todos voltam para as atividades nornais. Em São
Paulo, um professor criou, dentro de uma escola pública, o programa
"Você tem fome de quê?". Nesse programa ele e
os alunos visitam eventos culturais que acontecem no município.
Entram em museus, exposições, bienais e bibliotecas e
depois, quando todos voltam para a sala de aula, discutem sobre obras,
artistas e tudo que viram.
A formação da cidadania e a transformação
da consciência social estão intimamente ligadas à
cultura e à leitura. O desenvolvimento da literatura, da arte,
é um importante trabalho educativo, pois procura, por meio das
tendências individuais, encaminhar a formação do
gosto, estimular a inteligência e contribuir para a formação
da personalidade do indivíduo, sem ter como preocupação
única e mais importante a formação de artistas,
poetas, mas, sem dúvida, despertar novos talentos no seio da
comunidade.
A utilização da literatura infantil, acompanhada de atividades
lúdicas e brincadeiras, além de gerar resultados animadores
e gratificantes, faz com que a difícil tarefa de ensinar seja
muito mais gostosa e divertida, não apenas para os alunos, mas
também para os professores.
Termino este artigo com os dizeres de Ana Maria Machado, autora de 107
títulos, sendo 97 voltados ao público infantil, e ganhadora
do Prêmio Hans Christian Andersen, o Nobel da literatura infanto-juvenil:
"O bom educador transforma qualquer coisa em material de aula.
Ninguém pode dizer que uma semente é, em si, didática.
O bom professor pega a semente e ensina a origem da vida. O mesmo vale
para o livro. Em si, ele não é didático. O que
existe é a possibilidade de criar muitas aulas com base em seu
conteúdo, considerando que os grandes temas da humanidade estão
presentes nas grandes obras".
Ana
Paula Pontes