"Um
povo que não ama e não preserva suas formas de expressão
mais autênticas, jamais será um povo livre".
Plínio Marcos, teatrólogo
Primeiramente
parabenizo o AD por abrir espaço para mais um articulista, o
questionador, compositor e poeta Isaías Andrade. E foi lendo
o artigo dele sobre a falta de público nos eventos culturais
que resolvi abordar o tema Cultura do Saber.
No ano
passado participei de um seminário, no qual um dos temas debatidos
por três dias seguidos foi a formação de público.
Criam-se hoje alternativas para o incentivo à cultura, como a
Lei Rouanet e os editais públicos, mas pouco se fala em como
atrair público. Assistindo agora à serie JK, produzida
pela TV Globo, somos remetidos a um passado não muito distante,
no qual se discutia e respirava cultura por meio da música, da
poesia, das artes plásticas e de tantas outras manifestações
artísticas. O quê aconteceu? Por que hoje não é
assim? Acredito que uma das razões seja até a chegada
da televisão, mas o quê faltou mesmo foi inserir a cultura
na educação. Trabalhar na escola a formação
cultural do cidadão.
Mas como
fazer isso se ainda encontramos nas escolas professores que nunca foram
ao teatro, museu e cinema? A Unesco, em parceira com o Ministério
da Educação (MEC), fez uma pesquisa em todo Brasil, em
2004, para levantar o perfil (características sociais, econômicas
e profissionais) do educador no país. Por razões diversas,
entre elas distância e falta de recursos financeiros, ainda encontramos
profissionais que nunca participaram de eventos culturais e que classificam
essa ação como supérflua e lazer apenas.
Mostro
aqui números dessa pesquisa: 66,1% dos professores dizem que
freqüentam algumas vezes por ano exposições realizadas
em centros culturais e 8,6% dizem que nunca prestigiaram uma exposição.
Já ao teatro, 52,2% afirmam ir algumas vezes por ano e 17,8%
dizem que nunca foram. Ao museu, 50,4% dizem ter visitado algumas vezes,
enquanto 14,8% declaram nunca terem entrado em um. O cinema não
foge muito dessa realidade, embora muitas vezes seja mais acessível:
49,2% vão ao cinema algumas vezes por ano e 20,4% pelo menos
uma vez por mês.
Cabe destacar
que o educador no Brasil paga meia entrada em espetáculos culturais,
mas mesmo assim o valor do ingresso é colocado como um dos empecilhos.
Essa pesquisa mostra que um terço dos professores se classifica
como pobre, 65% possuem renda familiar entre dois e 10 salários
mínimos e 24% entre 10 e 20 salários mínimos. Vemos
espetáculos, cujos ingressos custam R$ 50, R$60 reais, e dentro
disso R$ 30,00 (meia entrada) ainda é considerado um custo alto
para a maioria que recebe menos de 10 salários mínimos
e tem outras obrigações.
Talvez
o governo devesse investir mais em eventos com preços populares
e colocar no currículo escolar a ida a museus e espetáculos
teatrais, danças, óperas etc. Na Escola Estadual Rodrigues
Alves, em São Paulo, um professor teve a idéia de criar
o projeto "Você tem fome de quê?", no qual ele
traz para dentro da sala de aula os acontecimentos e manifestações
culturais da cidade. Após os debates e ensinamentos, professores
e alunos visitam exposições, museus e também convidam
artistas para falar do trabalho na escola.
Pra vocês
verem a carência dessa vivência cultural, existe um curso
em são Paulo - com fila de espera - de "Formação
de Platéia", no qual duas musicistas preparam o público
para assistirem concertos, óperas e balés. Segundo uma
das professoras, muita gente não sabe se comportar dentro de
um teatro, não sabe o momento certo de aplaudir uma ópera,
desconhece o funcionamento de uma orquestra sinfônica e nunca
ouviu falar em Vivaldi, entre outras observações. Esse
desconhecimento também limita a participação do
público.
Consideramos
a escola como um centro de formação, então não
sei por quê não incluir disciplinas com enfoque maior para
música, literatura, teatro, cinema e outras atividades ligadas
à cultura. Importante também discutirmos na escola nosso
folclore, a importância de preservarmos a história e cuidarmos
dos nossos patrimônios culturais material e imaterial.
Ainda quero
ressaltar um outro item dessa pesquisa que me chamou a atenção.
Um outro facilitador de acesso à cultura pode ser a internet,
porém a maioria ainda é avesso às modernas tecnologias
de informação. 58,4% dizem que não navegam na internet
e 59,6% não usam o correio eletrônico. Outro agravante:
leitura de jornais. 23,5% declaram que lêem o jornal uma ou duas
vezes por semana, 9,5% a cada 15 dias e 3,7% nunca, não gostam
de ler jornal. Internet, jornal, revistas são veículos
importantíssimos de comunicação e que podem ser
utilizados como ferramentas educacionais, mas são ignorados por
boa parte dos educadores. É triste!
Se não
existe esse interesse pelo conhecimento, fica difícil despertar
em nossos mestres o interesse pelas práticas culturais e fazer
com que eles passem para os alunos a importância de consumir cultura.
Queremos expectadores inteligentes, só que para isso temos que
trabalhar na formação desse público para o aplauso
de todos!
Super abraço!
Ana
Paula Pontes