Conversa fiada

Vou encerrar 2005 um pouco chateada com os caminhos da nossa Cultura esse ano. Podemos dizer que o Ministério da Cultura se propôs a fazer muita coisa, estava disposto a dar uma nova cara para a Cultura em nosso país, mas tudo não passou de conversa fiada, ficou no discurso apenas.

Nosso Ministro Gilberto Gil viajou, discursou e acredito que até tentou fazer algo a mais pela nossa Cultura, mas faltou preparo, conhecimento administrativo. Muitos projetos foram colocados em andamento, mas não se pensou na estrutura, no como fazer e como manter. É muito fácil você anunciar vários projetos, ações culturais e até ter dinheiro para realizá-los, mas se não tiver planejamento, de nada adianta.

Vou exemplificar minha fala. O Ministério da Cultura divulgou que os projetos apresentados até 30 de setembro de 2005 seriam analisados para que pudessem receber o incentivo fiscal até dezembro de 2005. Anunciaram simplesmente esse fato, sem mais detalhes, e não se preocuparam em colocar profissionais para fazer o atendimento (tirar dúvidas) e nem para analisar os projetos apresentados. O quê aconteceu? Na ânsia de ver o projeto aprovado, muitos, na maioria leigos, não conseguiram falar com os atendentes e enviaram o projeto de qualquer jeito, tudo para não perder o prazo. Mais de dez mil projetos foram apresentados no Ministério da Cultura, 90% deles no mês de setembro de 2005. Uma loucura, para não dizer outra coisa. Tem projeto lá no Ministério da Cultura que ainda não foi nem cadastrado.

Na Biblioteca Nacional, órgão responsável pela análise de projetos da área de Humanidades (livros), os poucos funcionários ainda analisam projetos que foram protocolados em junho de 2005. Uma das atendentes me disse que além do montante de projetos enviados agora em setembro, parte dos funcionários entrou em greve e só retornou agora em novembro. Outro agravante é que a Biblioteca Nacional está praticamente sem parecerista, o número existente é insuficiente para atender a demanda.

O mais triste disso tudo é ver nosso ministro Gilberto Gil fazer um discurso e dizer, batendo no peito, que a apresentação de projetos no Ministério da Cultura bateu o recorde: "mais de dez mil projetos apresentados em 2005". Do que adianta isso se não tem como realizar o projeto pois o Ministério da Cultura não consegue analisar por falta de profissionais??? Será que devemos comemorar esses números??? Cadê os resultados ministro??? Temos que comemorar resultados e não números que não levam a nada.

Outra ação do Ministério da Cultura que vem se arrastando é o Ponto de Cultura. Fizeram o edital, todo o processo de seleção e anunciaram os contemplados. Todo esse processo demorou bem mais que o previsto. Muita comemoração, muito falatório, só que a primeira parcela que teria que chegar para as entidades beneficiadas de junho a outubro até agora nada. Aqui em Americana a ONG beneficiada é a Associação Arte de Vencer, que vem se estruturando desde a notícia do resultado para receber o Ponto de Cultura.


Tudo isso mexe com a comunidade, que está ansiosa, já que a proposta é trabalhar a inclusão digital com as crianças e os pais. Cria-se uma expectativa que não pode ser ignorada. Essa falta de respeito do Ministério para com as entidades, para com a comunidade beneficiada, acontece porque não existe planejamento, não existe preocupação com o próximo. Só se pensou em mídia, divulgação e o mais importante que é a realização do projeto foi colocada de lado, em segundo plano.

Essa semana Gilberto Gil anunciou uma parceria com a Petrobrás e com o BNDES que irá injetar na Cultura cerca de R$ 60 milhões. Parabéns para ele por esta conquista. Só torço para que ele enxergue a real situação da nossa Cultura e também invista na qualificação dos profissionais da Cultura, que ele faça um planejamento para 2006 e que tudo se concretize. Que ele tenha mais paixão pela nossa Cultura! Chega de conversa fiada... Queremos Cultura, precisamos de Cultura, de fato!

Um ótimo Natal e um 2006 recheado de coisas boas, momentos felizes, muita saúde, muita paixão, muitos amigos e muita Cultura. Super abraço!

Ana Paula Pontes