"Acredito
que só quando tivermos orgulho, prazer e dor de ser quem somos,
poderemos ser uma nação mais igualitária".
Neide Duarte, jornalista
Vimos e ouvimos recentemente nos noticiários a triste informação
do envolvimento de uma menina, de apenas 13 anos, naquele fato horrível
que vitimou cinco pessoas no incêndio criminoso de um ônibus
com passageiros dentro. Até mesmo uma policial, com mais de quinze
anos de serviço, ficou estarrecida com o depoimento frio da adolescente,
que em nenhum momento se arrependeu de ter cooperado com a ação.
Lembrei então de uma palestra que assisti com a jornalista Neide
Duarte, que faz o programa Caminhos e Parcerias da TV Cultura, há
uns três anos, no qual ela fazia esse alerta sobre o desinteresse
de nossa juventude pela vida. Naquele dia ela relatou a história
também de uma menina, de 15 anos, da periferia de São
Paulo, que contava rindo que tinha praticado um seqüestro relâmpago.
"Ela dizia aquilo como quem conta que cabulou uma aula, ela não
tinha idéia da diferença de valores. Ela aprendeu que
a vida humana não vale nada", relatou a jornalista, já
preocupada com a falta de perspectiva de futuro das nossas crianças
e jovens.
O depoimento da menina, pra mim ainda uma criança que deveria
estar brincando e não cometendo atrocidades, foi exibido em todos
os canais de TV, repercutiu e ainda repercute na mídia, já
que a polícia está à procura de outros envolvidos
denunciados por ela, fora aqueles quatro que já foram mortos
por uma facção criminosa do Rio que não aprovou
a atitude dos também marginais. A menina, podemos dizer assim,
virou "pop star", e isso é muito perigoso. Segundo
Neide Duarte, que já viajou o país inteiro e viu de perto
a triste realidade de um país que não cultiva a sua cultura,
"todo mundo quer mostrar seu talento para o mundo. Se não
puder ser para o bem, será para o mal". A criança
e o jovem vivem numa busca constante do seu espaço, do caminho
a seguir. Outro dia na TV Cultura acompanhei uma matéria no morro
do Rio de Janeiro, onde crianças estavam sendo entrevistadas
para falar sobre o que queriam ser quando crescer e uma delas respondeu:
"quero ser bandido, acho legal". Vejam só, que loucura.
Bandido, na visão daquela criança, é uma profissão
que pode levá-la a ficar famosa e até aparecer na TV.
Temos que nos atentar para essa visão, ou ilusão, que
vem sendo alimentada e não é só nos morros e periferias
de São Paulo e Rio de Janeiro. Vemos também poderosos,
alta sociedade, empresários cometendo atos ilícitos e
sendo considerados "homens de bem", somente porque têm
poder. Nós, pobres mortais, conhecemos o tão falado caixa
2. Para os grandes é outro nome: dinheiro não-contabilizado.
Se qualquer um de nós for pego fazendo uso do caixa 2 é
preso na certa, pois é crime, mas se um poderoso for pego fazendo
uso de dinheiro não-contabilizado nada acontece. Já está
provado que homens poderosos, que viviam pregando a ética, fizeram
uso desse dinheiro não-contabilizado e, infelizmente, eles vão
passar o Natal comendo panetone e vinhos importados, comprados com esse
dinheiro não-contabilizado e seremos nós, pessoas comuns,
obrigados a engolir panetone a seco, comprado com o salário contabilizado
e reduzido com todas aquelas tributações que já
vêm descontadas no holerite. Isso sim é um crime!
Toda essa falta de ética, falta de conduta e falta de justiça
nos causa repulsa e nos leva num momento de crise existencial a pensar:
Será que eles estão certos e nós é que somos
errados de querer fazer tudo como rege a lei? Imaginem como fica a cabeça
de uma criança, que tem como parâmetro um bandido, idolatrado
pela comunidade porque faz assistencialismo financiado pelo tráfico?
Um bandido que todos temem e por medo obedecem... Tenho quase certeza
que essa criança entrevistada e que disse que quer ser bandido
não teve ainda a oportunidade de ter contato com a arte, seja
através da música, da dança, da pintura para poder
dizer que quer ser um artista, ao invés de ser um bandido. A
filósofa e cientista política Hanah Arendt diz que "o
homem é o único ser que aprende a se tornar humano"
e que isso acontece por meio de exemplos que temos ao longo de nossa
vida, seja de nossos pais, de nossos amigos, daqueles que convivem conosco.
Isso até justifica a fala do garoto, pois talvez a convivência
dele seja única e exclusivamente com a criminalidade.
Será que não seria diferente a fala do garoto se houvesse
um programa cultural e educacional naquela comunidade, que também
envolvesse os pais, nosso maior referencial de vida? Se pudermos fomentar
a Cultura cada vez mais em nosso meio, as perspectivas de vida serão
outras. Num projeto sócio-cultural (Tambor Menino) que acontece
aqui em Americana, uma criança de apenas seis anos tem a maior
adoração pelo irmão que toca xiquerê. Na
última apresentação do grupo estava lá a
criança, tocando o xiquerê. Foi show! Já pensou
se o irmão resolvesse seguir outro caminho?
Essa cultura impune que vem sendo imposta pelo "não-contabilizado"
só traz exemplos ruins e precisa ser banida do nosso meio. Nós
temos em mãos o poder de decidir e sabemos disso. Não
vamos nos abater. Vamos cobrar justiça. Temos que sempre reivindicar
nossos direitos: o direito à vida, o direito a poder assistir
a um espetáculo de dança, a uma peça de teatro,
a um show musical. Ou então de ver nossas crianças e jovens
inseridos em ações culturais que promovam a vida, que
garantam a elas um futuro diferente do que foi vivido no passado e vem
sendo presenciado agora. Podemos começar pelo nosso bairro, buscando
participar ou interagir com ações sócio-educativas
e culturais. Temos muito a fazer.... Desanimar, como querem os poderosos,
jamais!
Abraços a todos!
Ana
Paula Pontes