Cadê a nossa Cultura?

"A cultura é como a atmosfera: não a percebemos, pois estamos imersos nela".
José Saramago, escritor

Hoje o foco do nosso artigo será um questionamento sobre o que é e o que fazemos com a nossa cultura. Começo afirmando que a cultura é a nossa maior riqueza. Como diz Saramago na citação acima, muitas vezes passamos por ela e a ignoramos, simplesmente porque ela faz parte de nós, está ao nosso redor. A cultura nos é transmitida ao longo da história e nos mostra o caminho a seguir, dentro de todo um contexto histórico, de gerações e tradições. Como diz Jean Pierre Warnier, "a cultura é a bússola de uma sociedade, sem a qual seus membros não saberiam de onde vêm, nem como deveriam comportar-se".

Com a globalização e os avanços da tecnologia, é possível ter contato com as mais diversas culturas, mesmo aquelas mais distantes. Essa proximidade, segundo alguns estudiosos do assunto, fez com que deixasse de existir a cultura pura, entrando em cena a "cultura multifacetada". Entraremos então em outro tema, que é a diversidade cultural, que vem sendo discutida em todo o mundo. No mês de outubro, a Unesco realizou uma assembléia em Paris, com representantes de mais de 150 países, para estabelecer a promoção e a proteção da diversidade das expressões culturais (bens e serviços), para que elas não sejam vistas apenas com um foco comercial, mas também, e principalmente, com um foco cultural mesmo, que carrega em seu bojo a identidade de um povo, de uma nação.

Todo esse cuidado é necessário, já que os Estados Unidos estão assinando acordos comerciais, com cláusulas esdrúxulas (para nós, porque para eles tem um significado comercial interessantíssimo) como o pedido que o país renuncie à proteção de suas indústrias culturais. Isso é inadmissível. Os Estados Unidos detêm a maior fatia do mercado cultural e eles sabem que podem mudar uma sociedade incutindo em outros países seus costumes e sua cultura. No mundo, a Cultura movimenta cerca de US$ 1,3 trilhão. Os Estados Unidos controlam 50%, ou seja, US$ 700 bilhões. E o Brasil? Nosso país não movimenta 0,5% desse mercado, infelizmente, mesmo com todo o potencial que temos.

Os Estados Unidos conhecem o poder transformador da Cultura. Como diz o poeta e produtor cultural Fernando Portella, "a educação ensina a ler, mas só a cultura ensina a enxergar". E nós brasileiros ainda não conseguimos enxergar e valorizar essa riqueza cultural que temos ao nosso redor, justamente porque não desfrutamos de nossos bens e ações culturais. Cultura aqui no Brasil ainda é sinônimo de lazer e entretenimento, considerada por muitos como supérfluo. Esse pensamento já vem lá de cima, de nossos governantes, que não priorizam a Cultura, ou seja, destinam muito pouca verba do orçamento para essa área e o pouco que destinam ainda tiram quando o "cinto aperta". A produtora cultural e atriz Lala Deheinzelin esteve em Americana para um seminário sobre Cultura e falou uma coisa que realmente, e infelizmente, acontece. Segundo ela, o segundo esporte mais praticado em nosso país, depois do futebol, é falar mal do Brasil. O próprio povo brasileiro despreza o quê tem. É mais fácil criticar, do que enxergar o quê realmente acontece e enfrentar, lutar para que haja mudanças.

É aquela história do "fogo na floresta". Pode ser que seja impossível controlar o fogo com gotas d´água, mas se cada um fizer a sua parte, a situação poderá se reverter. O primeiro passo é valorizar o quê temos e se não estiver bom, buscar aperfeiçoar-se, ver o que é possível fazer para melhorar o quê produzimos e criamos aqui e não simplesmente pisar em cima e mandar vir de fora. A produtora Lala Deheinzelin acredita que o fato de valorizarmos o quê vem de fora é fruto de um país colonizado. Pode até ser, mas aposto em mudanças. Depende de nós, apenas! Abraços!

Ana Paula Pontes