"Temos
a arte para que a verdade não nos destrua".
Friedrich W. Nietzsche - Filósofo alemão (1844 - 1900)
Hoje vou falar sobre alguns temas abordados e discutidos no 2º
seminário "Cultura: políticas e gestão",
promovido pelo Senac/SP, mas antes quero comentar sobre o nosso ministro
da Cultura, Gilberto Gil, e as mudanças emergenciais na Lei Rouanet
(8313/91).
Em maio, Gilberto Gil participou em São Paulo do I Fórum
Nacional de Cultura e Cidadania Corporativa e anunciou as mudanças
que seriam feitas na Lei Rouanet, por meio de um decreto que ele enviaria
para a Casa Civil até o final do mês, enquanto uma proposta
maior seria feita através de um projeto de lei que seguiria o
trâmite normal pelo Congresso Nacional. Confiantes, acreditávamos
que esse decreto estava parado até então na Casa Civil,
devido às mudanças ministeriais. Mas o ministro interino
da Cultura e secretário-executivo do MinC, Juca Ferreira, disse
no I Fórum Internacional de Cultura, que aconteceu agora em julho,
na Bahia, que o decreto ainda está no Ministério da Cultura,
infelizmente, aguardando o ministro Gilberto Gil voltar de férias.
Ao meu ver, esse decreto (já anunciamos nesse site algumas das
mudanças que fazem parte dele) vem sendo usado como estratégia
para aparecer na mídia. Em todo evento esse decreto é
mencionado, cria-se uma expectativa e nada. Artistas, produtores e gestores
de projetos culturais, principalmente aqueles ligados às artes
cênicas, estão "esperando na janela" a boa vontade
do nosso ministro de encaminhar esse decreto para assinatura do presidente.
Com toda essa crise, nem imagino quando esse decreto será publicado.
Enfim, vamos mudar de assunto e comentar do seminário que aconteceu
em São Paulo, no Senac. Foram três dias discutindo temas
e tendências relacionadas à gestão cultural, com
a participação de três conferencistas internacionais
com experiência em projetos realizados nos Estados Unidos, Inglaterra,
México e Espanha. Também teve a participação
de profissionais brasileiros que participaram como observadores, ou
seja, no final apontavam as diferenças, semelhanças e
dificuldades da produção cultural no Brasil.
Tivemos a oportunidade de apreciar assuntos ligados à produção
cultural, como planejamento estratégico, estratégias de
financiamento público e privado, captação de recursos,
formação de público, parcerias com poder público
e privado e as competências e formação do gestor
e do produtor cultural. Observamos nestes três dias que a classe
artística carece de informações, pois as perguntas
e dúvidas foram muitas. Foi possível sentir a necessidade
de entender como funciona o sistema cultural em nosso país e
de como a cultura ainda é restrita.
O que mais me chamou a atenção nestas discussões
foram assuntos como a formação de público e o papel
do produtor cultural em outros países. Quanto à formação
de público, lá fora a arte é trabalhada na escola,
na família. Aqui no Brasil, pensam primeiro em criar espaços
e ignoram que esse espaço precisa de manutenção
e também de uma programação, itens que envolvem
custos. E a construção de público? Muitos não
querem nem saber, ignoram a necessidade desse trabalho. Quero num artigo
específico falar só sobre formação de público,
que envolve um trabalho maior de formação de professores
e relacionamento com a comunidade. Só para exemplificar, um dos
observadores do seminário, Luis Carvalho Filho, diretor da Biblioteca
Mário de Andrade, de São de Paulo, disse que a biblioteca
só existe hoje "porque ela foi inaugurada". Ele disse
que a situação é crítica e é sempre
uma luta conseguir recursos para manter o acervo. Disse ele que
quando chegou para dirigir a instituição existia uma norma
que estabelecia que a biblioteca deveria fechar para o almoço.
Ou seja, não pensavam no público, pois muitos estudantes
que trabalham procuram a biblioteca na hora do almoço para fazer
pesquisas. Então, além de não pensarem nos recursos,
também ignoravam o público. Hoje ela abre no almoço!
Quanto à formação dos produtores culturais, podemos
ver que esse mercado não tem espaço para amadores. Teve
um participante que perguntou a um dos palestrantes "se o jeitinho
brasileiro" é o diferencial dos produtores do Brasil. A
resposta foi direta: "Quem tem sucesso nessa área é
somente quem trabalha seriamente e profissionalmente. Jeitinho não
combina com profissionalismo". Que bom ouvir isso! A nossa cultura
merece e carece de profissionais, é coisa séria, embora
envolva lazer e entretenimento, além da arte.
Outro observador, o produtor executivo Luiz Nogueira, disse que já
trabalhou na cultura em todas as esferas, federal, estadual e municipal,
e também em instituições privadas e fez um relato
do que é trabalhar com cultura no Brasil. "Vi muitas vezes
pessoas serem colocadas na cultura por indicação política,
sem ter o mínimo conhecimento. Onde vamos colocar tal pessoa?
Ah, manda para a Cultura". Têm-se a impressão que
trabalhar com cultura é fácil, não precisa ter
noção de nada. Isso é um erro muito grande. O que
falta é uma articulação da classe artística
para que sejam criados cursos de formação de profissionais
na área cultural para que o sistema ganhe eficácia e eficiência.
O Senac tem alguns cursos técnicos na área de produção
cultural e, de acordo com informação dos organizadores
do evento, é possível haver futuramente cursos de graduação
e especialização na área de formação
de gestores e produtores culturais. O próprio Luiz Nogueira disse
que encontrou dificuldades para contratar um produtor que soubesse gerenciar
uma exposição, ou seja, cuidar de todos os detalhes de
montagem, desmontagem, decoração, iluminação
adequada, público etc.
Acredito que a formação de gestores e produtores irá
fomentar a cultura e criar novas oportunidades de acesso à arte.
Além, é claro, de gerar emprego. Segundo a organizadora
do evento, uma em cada sete pessoas em Londres trabalha no setor criativo
que movimenta mais de bilhões. No Brasil temos como investir
no setor cultural, formando profissionais e incentivando nossos artistas.
Nosso povo é criativo e nossa cultura é rica, a melhor
do mundo!
Abraços!
Ana
Paula Pontes