"Cultura é toda criação humana."
Paulo Freire, 1982
"Só
a Cultura salva". Essas são as palavras finais de um
longo discurso proferido pelo nosso ministro-artista da Cultura, Gilberto
Gil, na abertura do Seminário Internacional de Políticas
Públicas de Cultura, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro
(UERJ). Um discurso belíssimo, no qual ele abre o jogo e fala
que o governo federal, passado e atual, não compreende o papel
da cultura no desenvolvimento de um país. Os governantes, políticos,
não conseguem enxergar a cultura como política social.
Desenvolvimento é somente economia e ponto final. Cultura gera
emprego, gera renda, gera bem-estar, gera desenvolvimento. Uma pena
que tudo que foi dito lá fique apenas no discurso e no papel.
Como produtora
cultural tenho acompanhado a luta do ministro Gilberto Gil em difundir
a cultura dentro e fora do nosso país. Acredito que a dificuldade
maior tem sido aqui dentro da nossa casa mesmo, infelizmente. No seu
governo ele já promoveu encontros com produtores, artistas gestores
de cultura e empresários, mas os resultados ainda são
poucos. O governo, como Gil mesmo diz, não compreende o que ele
quer dizer; os empresários, muitos menos; e os artistas, ONGs
e gestores culturais continuam na luta para sobreviverem da arte e mostrando,
por meio de ações e manifestações culturais
diversas, que o investimento em cultura é a solução
para o nosso Brasil diminuir as diferenças sociais e econômicas.
Os artistas precisam ser vistos e compreendidos.
O que falta
ao nosso ministro é mais ação, além dos
discursos. O ministro coloca no papel e acredita que tudo está
sendo feito, conforme está escrito e foi determinado, mas esquece
de ver se existe estrutura para que tudo possa ser realizado. Ele falou
em seu discurso que quer que seu governo seja visto como "a
gestão que construiu o Sistema Nacional de Cultura, ....e que
realizou o mais abrangente programa de inclusão cultural deste
país, em parceria com estados e municípios, dando vez
e lugar a todas as manifestações culturais...".
Nossa, torço por isso, ele merece ser reconhecido por todo empenho
frente ao Ministério da Cultura, mas falta planejamento, estrutura,
capacitação dos profissionais da Cultura para que isso
aconteça. Qual a parceria existente com a prefeitura local? O
programa Pontos de Cultura foi lançado no ano passado
e dos selecionados, poucos começaram o trabalho. Faltou informação!
As ONGs contempladas estavam com documentação irregular,
outras não tinham estrutura compatível para abrigar o
projeto. O processo de seleção também foi confuso
e dificilmente conseguia-se informações no MinC.
Aliás,
com relação a informações, o Ministério
da Cultura tem falhado muito. Informações desencontradas
têm dificultado a apresentação de projetos ao mecenato
(Lei Rouanet 8313/91). Isso quando atendem ao telefone. No início
do governo, um programa de capacitação foi feito e tudo
parecia caminhar bem. Agora, talvez devido à greve dos servidores
da Cultura, a qualidade do atendimento caiu muito. É ministro,
não é fácil não! Talvez seja mais fácil
e bonito discursar, cantar, fazer shows ou então difundir a nossa
cultura no exterior.
Espero
que Gilberto Gil consiga tirar o discurso do papel e ser aclamado e
reconhecido pelo seu trabalho de fazer com que a cultura seja vista
como essencial numa sociedade que busca o desenvolvimento social, econômico
e político. Pois concordo com ele, que "só a cultura
salva" esse mundo onde prevalecem, e crescem a cada dia, as
mazelas sociais, como a miséria e a violência. A cultura
tem um poder incomensurável de transformar o mundo. Tenho presenciado
mudanças significativas de comportamento em crianças e
familiares envolvidos em projetos culturais. No próximo artigo
vou falar de alguns projetos que têm dado muito certo, resultados
fantásticos, entre eles o Aprenda Cantando, do educador
musical Rogério Barbosa, que forma corais nas escolas públicas.
Vale ressaltar aqui que esse projeto acontece porque poder público
e empresários locais abraçaram a iniciativa e acreditaram
na força da cultura. Até breve!
Super abraço
a todos!
Ana
Paula Pontes