O livro, a rua e a arte

"Entre palavras circulamos, nascemos, vivemos e morremos, e também palavras somos."
Carlos Drummond de Andrade

Hoje vou embolar tudo, tendo o livro como foco. É que a semana já começou bem pra mim, com a oportunidade de participar do lançamento de um livro, e o melhor, de um escritor de Americana; por também estar, nesse momento, lendo um livro que conta a história de uma menina que se encontrou na vida, graças ao apoio de uma ONG, e que relata tudo em seus livros; e, ao mesmo tempo, ter em minhas mãos o projeto de um livro de uma professora que escreve sobre os moradores de rua. Quanto livro, complicado? Vou explicar!

Na segunda-feira, dia 18, fui convidada pela amiga e escritora Regina Gouvêa Gonçalves para participar do lançamento do livro do Professor Walter Faé, respeitado escritor aqui de Americana, que nos presenteou com Relâmpagos - Monteiro Lobato/Vivo - Idéias perenes e luminosas, no qual ele dialoga com Monteiro Lobato, esse mestre da literatura infantil e que de fato está vivo sim, como diz o professor Faé, graças às suas obras literárias, aos seus personagens que até hoje fazem sucesso entre a criançada e os mais "grandinhos" também. A data de lançamento do livro (aniversário de Monteiro Lobato) e o local escolhido (Lar Escola Monteiro Lobato) não poderiam ser melhores. Rodeado de crianças, o professor Faé se emocionou com as homenagens dos amigos e familiares. Foi tudo muito bonito e ainda tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, já que nos falamos algumas vezes, mas só por telefone.

Voltei para casa contente e, mesmo muito cansada, quis ainda dar continuidade na leitura de um livro envolvente, Aprendiz de Mim, de Rubem Alves. Neste livro o autor conta como foi conhecer o projeto Cidade Escola Aprendiz, do jornalista Gilberto Dimenstein: "um bairro que virou escola", como diz Rubem Alves. Entre os inúmeros relatos de histórias e emoções vividas, o escritor fala de Esmeralda Ortiz, uma menina que logo cedo, com oito anos apenas, saiu de casa com a esperança de encontrar um lugar onde pudesse realizar o sonho de ser feliz, viver melhor e ter uma família de verdade. Mas nas ruas ela se deparou com a violência, com as drogas, com a prostituição, com a miséria, ou seja, pegou a rua errada. Somente com 18 anos, com o apoio da ONG Projeto Travessia é que ela acertou o caminho. Conseguiu se livrar das drogas, fez amigos e começou a trabalhar em outra ONG, a Cidade Escola Aprendiz. Lá teve o apoio do jornalista Dimenstein e deu início a um de seus sonhos, ainda de menina: lançou em 2001 o livro Esmeralda - Por que não dancei, que já está na 4ª edição, no qual ela fala de sua vida. Em 2003 o segundo livro O diário da rua e já se prepara ara lançar o terceiro livro. Estuda jornalismo e tem um filho, outros dois sonhos realizados por Esmeralda.

Vejam as coincidências da vida: esse livro que leio agora, de Rubem Alves, cita a Fundação Projeto Travessia, que amparou a Esmeralda. Comecei a ler um trabalho de uma escritora de São Paulo, poesias, que tem como foco os moradores de rua. A escritora dedica o livro aos amigos da Fundação Projeto Travessia. Estou envolvida num projeto de hip hop (conhecido como cultura das ruas), chamado Expresso Rua. O projeto Cidade Escola Aprendiz, objeto do livro de Rubem Alves, mostra que todo o trabalho teve início nas ruas do bairro Vila Madalena, em São Paulo.

Tudo isso só ratifica que a arte é a solução para modificarmos o cotidiano das ruas, seja daqui, de São Paulo, de onde for. O jornalista Gilberto Dimenstein conta que idealizou o projeto Cidade Escola Aprendiz andando pelas ruas de Nova York, que também sofria modificações por meio de um trabalho comunitário ligado a arte.

Que nossos governantes enxerguem esse poder da arte e modifiquem essa visão de que a menor fatia do orçamento deva ir para Cultura. É um absurdo as secretarias de Cultura, sejam elas dos municípios, do Estado e mesmo o Ministério da Cultura, passarem o ano todo implorando ajuda para que possam investir em projetos culturais que tantos benefícios trazem para a comunidade, sem explorar, é claro, o fato da geração de emprego. Um projeto cultural sempre envolve a contratação de professores, monitores, coordenadores, pedagogos e por aí vai. Segundo dados do Ministério da Cultura, cada R$ 1 milhão investido em Cultura corresponde a 160 postos de trabalho diretos e indiretos. Vejam só!

Acima de tudo está o prazer da arte, de consumir cultura, de realizar sonhos. Termino este artigo com uma fala da jovem escritora Esmeralda, que está no livro de Rubem Alves: "...as pessoas aqui no Aprendiz confiaram em mim e nas minhas capacidades, me estimularam, retomaram em mim a vontade de sonhar... descobri que tinha que perdoar o meu passado para viver um presente legal".
Vamos ler! Vamos sonhar! Super abraço a todos!

Ana Paula Pontes