Hip Hop: A cultura das ruas

"Viver intensamente, observar o mundo.
Plantar uma semente de união a cada segundo.
Juntar minhas palavras com as suas.
Com o ritmo e a poesia revelar a filosofia das ruas."

Tive a oportunidade de conversar com o professor de break, Júlio César, mais conhecido como Gago, que tem um projeto de levar o hip hop aos bairros. Acabei me envolvendo com o projeto e fui procurar saber mais sobre esse movimento, que tem crescido no país a cada dia e tem atraído a atenção de crianças e jovens, de todas as classes sociais.

O programa Domingão do Faustão mostrou há umas duas semanas um menino, que deve ter uns 14 anos, conhecido como D<, que fez um rap em homenagem ao avô e que virou sucesso. D< já tem um grupo e faz shows no Rio e em outros Estados. Essa semana o convidado era Marcelo D2, que também interpretou músicas (rap) que foram cantadas, do começo ao fim, pela platéia do programa. Deduz-se então que o hip hop está agradando e já é sucesso garantido.

Coloquei em destaque neste artigo um trecho da música Se o mundo inteiro pudesse me ouvir, do grupo Filosofia de Rua, que retrata bem quais são os objetivos do hip hop, que envolve música, dança, poesia e a realidade. O hip hop ainda hoje é visto por muitos como um movimento marginal, mas, na verdade, podemos dizer que ele é um movimento cultural, também conhecido como Cultura de Rua, que propicia integração e inserção social e educacional, principalmente de crianças e adolescentes. O hip hop é a oportunidade de expressar por meio da palavra, da dança e do ritmo a realidade vivida nas ruas e clamar por justiça e paz. É a oportunidade de chamar a atenção da comunidade, por meio da poesia, para os problemas enfrentados no dia-a-dia, falar dos direitos e deveres e apontar soluções. O hip hop é a literatura cantada na sua forma mais coloquial, simples, real.

De acordo com os adeptos do movimento, hip hop é o "nome dado ao movimento cultural que engloba o rap (música muito mais falada que cantada), o break (dança robotizada) e o grafite (artes plásticas), e cuja expressividade veio a crescer a partir dos anos 90. Ligado às camadas sociais desfavorecidas pelo sistema desde seu nascimento, tornou-se logo conhecido e difundido por criticar ferozmente, por meio do rap, o quadro crônico de desigualdade, contradição e violência a que se submete a sociedade moderna". Por isso, muitos dizem que o movimento é a "CNN da periferia", ou seja, que o hip hop é a única forma da periferia e dos guetos expressarem suas dificuldades e suas necessidades.

Já que o movimento tem tido grande aceitação da juventude, por que não utilizá-lo como projeto de inclusão social? A jornalista Neide Duarte diz que "todo mundo quer mostrar seu talento para o mundo. Se não puder ser para o bem será para o mal". Essa visão ela adquiriu após conversar com jovens infratores de São Paulo que falavam com naturalidade de seqüestros relâmpagos e de mortes. "Uma menina de 15 ou 16 anos me contou rindo que estava ali porque tinha feito um seqüestro relâmpago e eu senti no olhar e no sorriso dela que ela dizia aquilo como quem conta que cabulou uma aula. Ela não tinha idéia da diferença de valores. Ela aprendeu que a vida humana não vale nada", ressaltou a jornalista, assustada com o relato.

Neide Duarte, após esse contato com jovens da Febem, destaca ainda a necessidade do jovem estar enturmado. "Todo mundo precisa fazer parte de um grupo, precisa se sentir incluído, ser da turma, nem que seja da turma dos traficantes, dos bandidos. Enfim, o menino será da turma que o receber melhor. Onde ele perceber que alguém, de alguma forma reconhece seu valor". E é justamente aí que entra o projeto de hip hop, que pode atrair a atenção desse jovem que busca estar numa turma, que busca mostrar sua criatividade, seu talento ou que busca apenas por espaço, respeito e amigos.

O hip hop trabalha com linguagens que estão próximas à realidade vivida por crianças e adolescentes, atraindo a atenção deles. O objetivo de implantar projetos de hip hop nos bairros não é transformar os jovens em artistas e sim abrir as portas para que eles consigam se expressar e tenham coragem de sair em busca de seus sonhos. No Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, a diretora de uma escola decidiu adotar o hip hop e os resultados superaram as expectativas. Antes de implantar o projeto, as gangues interrompiam as aulas com gritaria, agressões e tiros para o alto. Isso sem falar nas pichações. 40% dos alunos abandonavam os estudos e 28% eram reprovados.Após o projeto, as pichações foram substituídas por grafites, com mensagens de paz. Os alunos se preocupam em cuidar da escola e não se ouve mais tiros no pátio. A freqüência aumentou e apenas 5% abandonaram os estudos em 2001. O índice de repetência caiu para 13%. A maioria agora tem a esperança de um futuro mais promissor, longe da marginalidade.

O hip hop pode proporcionar um novo caminho, a esperança de uma vida melhor, por meio da arte e da valorização da nossa cultura.Basta saber fazer e ter amor pelo que faz. Uma aula bem dada de hip hop pode aproximar as crianças e adolescentes da arte (dança, música, canto, criatividade) e fortalecer nelas a cidadania, trabalhando conceitos de respeito, deveres e direitos que irão contribuir na formação do seu senso crítico. O projeto pode criar alternativas para que as crianças e adolescentes possam descobrir seus talentos, suas habilidades e criatividade, que irão ajudá-las a traçar os rumos do futuro.

Fico aqui na torcida para que o projeto do Gago dê certo! Abraços a todos!

Ana Paula Pontes